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Em contrastes de lilás e vermelho, agosto foi marcado por sete feminicídios em Mato Grosso do Sul 

As vítimas não são números ou estatísticas são mulheres que tiveram suas vidas interrompidas de forma violenta

Layane Costa
Agressões domésticas contra mulheres crescem 28,9% em dias de futebolProtesto contra o feminicídio. (Foto: Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Sete mulheres tiveram as vidas interrompidas em apenas 31 dias. Esse é o reflexo do mês de agosto, dedicado à conscientização pelo fim da violência doméstica e familiar contra a mulher, que, por outro lado, foi sangrando para elas em Mato Grosso do Sul. Em média, uma mulher foi morta a cada quatro dias.

Rose, Adriana, Nathalia, Joseane, Fátima, Marta e Adrieli não se tornaram números ou estatísticas; são mulheres que tiveram suas vidas interrompidas de forma brusca e violenta. Elas eram filhas, mães, irmãs e amigas que deixaram um vazio no caminho de quem ficou por aqui e tenta resignificar a vida sem elas.

Entre os oito meses de 2026, agosto foi, sim, o mais violento para elas. Segundo os dados do Monitor da Violência Contra a Mulher, foi justamente neste mês que sete delas perderam a vida, sendo a maioria de forma violenta.

Aborto reportagem
Em 2025, 3 mil mulheres solicitaram medidas protetivas. (Ilustração – Giovana Gabrielle, Midiamax)

Agosto Lilás

Além dos óbitos registrados, já são mais de 14 mil registros de violência doméstica existentes. De um lado, o mês com a temática lilás chamou a atenção para o fim da violência; de outro, as mulheres foram agredidas e mortas pelos seus companheiros.

Para Estela Márcia Rondina Scandola, que é integrante da Rede Feminista e pesquisadora da Escola de Saúde do SUS (Sistema Único de Saúde), a violência está se intensificando no mês em que as ações são intensificadas.

“É um cenário que nós estamos vivendo, que, de um lado, a gente tem a mobilização, mas, do outro lado, também a gente tem as agressões se intensificando. Percebemos que, primeiro, temos uma intensificação da violência e um cenário imenso de violência, mas, de outro lado, a gente tem uma manutenção da normalidade da violência. Isso é um sinal de autorização social pelo aumento da violência”, disse Estela.

Estela Márcia Rondina Scandola. (Foto: Arquivo Pessoal, Midiamax)

O ciclo de violência nem sempre começa na agressão física; uma simples mensagem pode se transformar em violência psicológica e está aí a importância de maximizar o risco.

“Tem uma regra que eu acho fundamental: em quaisquer situações de violação de direito, a gente precisa maximizar o risco. O cara passou uma mensagem grosseira, maximiza o risco, depois dessa mensagem vem o que? E a partir do risco, você precisa potencializar a proteção, juntar-se a outras mulheres, denunciar e, em caso de emergência, ligar para a polícia, ou seja, você precisa potencializar a proteção”, frisou a especialista.

Medidas Protetivas de Urgência

A chamada MPU (Medida Protetiva de Urgência) é uma ferramenta de proteção para mulheres vítimas de agressão. Neste cenário, somente neste ano, cerca de 13.372 foram solicitadas no Mato Grosso do Sul, sendo que 11.458 foram concedidas e 1.299 prorrogadas.

Em cenário de risco, mais de 1.985 mulheres acionaram a PM (Polícia Militar) por meio do 190 para informar o descumprimento da medida. Os números retratam parcialmente a realidade das mulheres que decidiram quebrar o silêncio e romper o ciclo de violência.

Isso porque a quebra do silêncio junto ao ciclo ainda é uma tarefa difícil para muitas delas. “A violência doméstica é complexa e as circunstâncias que dificultam o rompimento do ciclo são várias; podem ser o controle emocional, a vergonha da família ou da sociedade, a dependência financeira, a preocupação com os filhos, o medo, a esperança de que o agressor vai mudar o comportamento”, explicou a delegada Fernanda Piovano, titular da 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).

Reconhecer alguns comportamentos do companheiro pode facilitar a quebra do ciclo ou até mesmo evitar entrar nele. “Comportamentos que indicam ciúmes excessivo, controle sobre a vida e liberdade da vítima, controle das suas ações, decisões e comportamentos, ameaças, isolamento e limitação de direitos são sinais que indicam a existência do ciclo de violência, o qual, se não rompido, pode se agravar e levar à agressão física”, explica.

Delegacia à disposição

Muitos pensam que ir até a 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) é apenas para a formalização de uma denúncia de crime que já aconteceu, seja ele de ameaças ou agressões. No entanto, a Delegacia de Atendimento à Mulher possui diversos atendimentos, incluindo orientação.

“Estamos disponíveis para atendimento, esclarecimentos de dúvidas e registro de ocorrências. Também há um setor psicossocial que funciona 24 horas para atendimento das vítimas e orientações”, pontuou.

Atualmente existem alguns canais de denúncias, como o Ligue 180, do Ministério das Mulheres. Por lá, são aceitas denúncias de forma anônima.

Feminicídio

O feminicídio é tipificado como qualquer morte violenta de mulheres motivada por questões de gênero. Em 2015, entrou em vigor a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/15), o assassinato de mulheres por serem mulheres. Assim, a lei considera feminicídio quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima.

A Lei 14.994, de 2024, aumentou a pena para os condenados pelo crime de feminicídio, que passou a ser de 20 a 40 anos de prisão, maior do que a incidente sobre o de homicídio qualificado (12 a 30 anos de reclusão).

Feminicídios em 2026:

  • Josefa dos Santos () – 16 de janeiro;
  • Rosana Candia Ohara () – 24 de janeiro;
  • Nilza de Almeida Lima (Coxim) – 22 de fevereiro;
  • Beatriz Benevides (Três Lagoas) – 25 de fevereiro;
  • Liliane de Souza Bonfim Duarte (Ponta Porã) – 6 de março;
  • Leise Aparecida Cruz (Anastácio) – 6 de março;
  • Ereni Benites (Paranhos) – 8 de março;
  • Fátima Aparecida da Silva (Selvíria) – 23 de março;
  • Marlene de Brito Rodrigues (Campo Grande) – 6 de abril;
  • Vera Lúcia da Silva () – 12 de abril;
  • Zelita Rodrigues de Souza (Mundo Novo) – 30 de abril;
  • Fabíola Marcotti (Campo Grande) – 18 de maio;
  • Maria do Carmo de Souza (Naviraí) – 28 de junho;
  • Paula de Souza Conceição (Fátima do Sul) – 11 de julho;
  • Rosenilda de Oliveira Candelario (Nioaque) – 17 de julho;
  • Terezinha Nantes de Arruda (Campo Grande) – 27 de julho;
  • Ana Carolina Goes (Água Clara) – 30 de julho;
  • Adrielle Encarnação Rodrigues (Corumbá) – 31 de julho;
  • Rose Batista Cabreira (Dourados) – 2 de agosto;
  • Adriana Barrios (Paranhos) – 5 de agosto;
  • Nathalia Rodrigues Nogueira (Rio Verde de Mato Grosso) – 6 de agosto;
  • Joseane Oliveira Nunes (Campo Grande) – 19 de agosto;
  • Fátima Alves de Matos (Costa Rica) – 21 de agosto;
  • Marta Florentino Godoi (Aquidauana) – 24 de agosto;
  • Adrieli dos Santos (Campo Grande) – 29 de agosto.

📍 Onde buscar ajuda em MS

Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira está localizada na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá, 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana.

Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal. É possível ligar para 153.

☎️ Existem ainda dois números para contato: 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190. Importante lembrar que a Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.

As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.

Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.

📍 Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.

⚠️ Quando a Polícia Civil atua com negligência, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.

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