Polícia Civil descobriu que integrantes do grupo usavam perfis falsos para criar vínculos com adolescentes e, depois, ameaçar e manipular as vítimas.
Por Ana Karla Flores, g1 MS
A Polícia Civil identificou que a adolescente de 13 anos, de Naviraí (MS), teria sido atraída para um grupo virtual depois que um dos integrantes conquistou a confiança ao ponto de ser considerado por ela como sua “melhor amiga”. A proximidade, porém, seria parte de uma estratégia de aliciamento.
Segundo a Polícia Civil, depois de estabelecer o vínculo, o suspeito passou a ameaçar, manipular e coagir a menina para que ela cumprisse ordens do grupo.
O caso é investigado pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e apura a atuação de grupos virtuais envolvidos no aliciamento de crianças e adolescentes, automutilação e indução ao suicídio.
Os novos detalhes foram apresentados pela delegada Anne Karine Trevisan, responsável pelas investigações, durante coletiva realizada nesta quinta-feira (17).
Segundo a polícia, os integrantes dos grupos utilizavam perfis falsos nas redes sociais para localizar pessoas consideradas vulneráveis.
A aproximação começava com a construção de uma relação de confiança e, posteriormente, evoluía para ameaças e controle psicológico.
No caso da adolescente de Naviraí, a pessoa que se aproximou dela teria construído uma relação tão próxima que passou a ser vista como sua melhor amiga. A partir desse vínculo, a vítima teria sido introduzida no ambiente dos grupos e submetida a ameaças e coerção.
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Seis menores são apreendidos por morte de menina transmitida pelo Discord — Foto: Reprodução
Da amizade à ameaça
De acordo com a investigação, os integrantes dos grupos não precisavam conhecer pessoalmente as vítimas. Eles procuravam principalmente crianças e adolescentes com perfis públicos nas redes sociais.
Fotos, vídeos e outras informações disponíveis na internet eram utilizados para iniciar o contato.
Depois da aproximação, os suspeitos levavam as vítimas para outras plataformas digitais. Com a confiança estabelecida, começavam a obter informações pessoais e a utilizar esses dados para ameaçá-las. A Polícia Civil chamou essa dinâmica de “escravização virtual”.
“Uma pessoa conquistou a confiança de Lívia fingindo uma relação tão próxima ao ponto de ser considerada sua melhor amiga”, explicou a delegada durante a coletiva.
Segundo a investigação, depois de ser enganada, a adolescente passou a ser ameaçada, manipulada e coagida por integrantes do grupo a fazer o que eles determinavam.
Outra adolescente também teria sido aliciada
A investigação identificou ainda outra adolescente que teria sido induzida por integrantes do grupo à automutilação e ao suicídio. Nesse caso, porém, a jovem conseguiu interromper a transmissão antes de consumar o ato.
Para a polícia, os casos revelam um padrão de atuação em que os suspeitos primeiro estabelecem vínculos afetivos ou de amizade com as vítimas e, posteriormente, utilizam a confiança conquistada para exercer controle sobre elas.
A maioria das vítimas identificadas pela investigação é formada por meninas e adolescentes.
Segundo a delegada, também há um padrão relacionado ao isolamento social. Por isso, a Polícia Civil orienta pais e responsáveis a observar mudanças de comportamento e a rotina digital dos filhos.
A recomendação é que as famílias saibam quais plataformas e grupos são acessados pelos adolescentes e quais conteúdos eles consomem na internet.
“Panelas” disputavam reconhecimento
Conforme as investigações, os grupos eram chamados pelos próprios integrantes de “panelas” e disputavam reconhecimento dentro dos ambientes virtuais.
Os participantes utilizavam o termo “hype” para se referir ao reconhecimento obtido pelos grupos. Quanto mais extremo fosse o conteúdo produzido durante os chamados “eventos”, maior seria o prestígio conquistado entre os participantes.
A investigação aponta que os grupos utilizavam diferentes plataformas digitais para conversar, recrutar vítimas e transmitir conteúdos.
12 adolescentes são investigados
Após as duas fases da Operação Lívia, 12 adolescentes são investigados por envolvimento com os grupos virtuais.
Na primeira fase, realizada em 4 de agosto, cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, foram apreendidos. Um jovem de 18 anos também foi alvo da operação. Na segunda fase, realizada na terça-feira (15), seis adolescentes foram apreendidos.
O adulto envolvido na primeira fase responde, conforme informado pela Polícia Civil, por homicídio qualificado, organização criminosa e maus-tratos contra animais.
Em relação aos adolescentes, a responsabilização ocorre por atos infracionais. O adolescente apontado pela investigação como um dos responsáveis pela organização do grupo teria 14 anos e foi apreendido no Rio de Janeiro.
Durante as buscas realizadas na primeira fase, foram apreendidos celulares, computadores, armas, materiais relacionados à apologia ao neonazismo e conteúdos de abuso sexual infantil.
Adolescentes da primeira fase foram soltos
Os cinco adolescentes apreendidos durante a primeira fase da Operação Lívia foram posteriormente colocados em liberdade por decisão judicial.
Segundo o juiz da 1ª Vara Criminal de Naviraí, Fernando Moreira, a etapa judicial referente à internação provisória foi concluída.
O magistrado explicou que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece prazo máximo de 45 dias para a conclusão do procedimento de internação provisória. Segundo ele, o período terminou sem que todos os laudos necessários fossem concluídos.
A soltura não encerra a investigação sobre os atos atribuídos aos adolescentes.
Relembre o caso
A adolescente de 13 anos morreu em 22 de julho, dentro da casa onde morava com a família, em Naviraí.
Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio. Com o avanço das investigações, entretanto, a Polícia Civil identificou indícios de que a menina teria sido ameaçada, manipulada e coagida por integrantes de um grupo virtual. A morte passou, então, a ser investigada como possível homicídio.
Segundo a polícia, o contato com as vítimas começava nas redes sociais e poderia envolver a criação de perfis falsos. Depois de conquistar a confiança dos adolescentes, os integrantes dos grupos utilizavam ameaças e manipulação para controlar as vítimas.
Discord teve transmissões ao vivo suspensas
Após o caso, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou, em 12 de agosto, a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil.
A decisão, no entanto, não suspendeu o funcionamento do Discord no país. A medida atingiu especificamente a ferramenta de transmissões ao vivo e deve permanecer até que a empresa comprove a adoção de medidas consideradas efetivas para proteger crianças e adolescentes.
A investigação da Operação Lívia continua para identificar outros possíveis integrantes dos grupos, além de localizar e proteger eventuais vítimas.

