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Educação

Projeto orienta famílias do Vale do Ivinhema sobre sucessão rural

Iniciativa desenvolvida na UFMS de Nova Andradina promove capacitação e acompanhamento de produtores para planejar a continuidade das propriedades e ampliar a participação das novas gerações na agricultura familiar

 

Quem dará continuidade à propriedade rural no futuro? A resposta envolve mais do que identificar um possível sucessor: exige diálogo entre gerações, planejamento, divisão de responsabilidades, conhecimento sobre o negócio da família e preparação de quem poderá assumir sua gestão.

Dados do último Censo Agropecuário realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017, indicam um processo de envelhecimento dos produtores sem a substituição geracional correspondente. Dos 5,07 milhões de estabelecimentos agropecuários recenseados no país, cerca de 3,9 milhões, o equivalente a 77%, eram classificados como de agricultura familiar. Entre 2006 e 2017, o número de pessoas ocupadas nesses estabelecimentos diminuiu em aproximadamente 2,2 milhões.

Para auxiliar agricultores familiares nesse processo, o projeto de extensão UFMS vai ao campo desenvolve um Plano de Sucessão Rural com famílias do Vale do Ivinhema. A iniciativa reúne capacitação, orientação e acompanhamento das propriedades para estimular o planejamento da sucessão e a permanência das novas gerações no campo e é coordenada pelo professor da UFMS de Nova Andradina Fabiano Greter. “A continuidade das propriedades rurais no Brasil é um dilema para as famílias no campo. A ausência de diálogo e os conflitos entre gerações são elementos que interrompem os processos sucessórios nas propriedades. Na região do Vale do Ivinhema não é diferente, seja em pequenas, médias ou grandes propriedades, todas passam por problemas em seu processo de sucessão”, fala Fabiano.

“Pesquisas apontam que as propriedades rurais que não buscam realizar um processo sucessório planejado e organizado correm o risco de não ter continuidade na atividade principal explorada, terminando na venda ou no arrendamento da propriedade. Não é possível afirmar que todas passarão por essa condição, porém, na grande maioria dos casos, quando não há sucessores para dar continuidade às atividades produtivas, ocorre o fim do ciclo no campo. Outro fator muito comum é tornar a propriedade um refúgio de lazer, sem explorar os recursos produtivos, enquanto o restante é alugado para geração de renda”, comenta o professor.

Segundo ele, todos os negócios precisam de planejamento para funcionar adequadamente e, quando se trata de sua continuidade, a possibilidade de sucesso é maior com um processo sucessório bem estruturado, principalmente quando existe mais de um sucessor na propriedade. “A participação dos membros da família na produção e na gestão da propriedade contribui para a permanência das famílias no campo, com geração de renda e divisão estruturada de responsabilidades”, afirma.

“Na região, há mais de 2 mil famílias ligadas à agricultura familiar. O potencial social e econômico desse segmento é fundamental para o desenvolvimento dos municípios, pois as relações mercantis ocorrem dentro do comércio local, impulsionando a economia e fortalecendo produtores rurais e comerciantes”, destaca Fabiano.

Planejar a continuidade

O Plano de Sucessão Rural é uma das ações do projeto de extensão UFMS vai ao Campo, desenvolvido desde 2019. “Queremos não apenas contribuir para o dilema da sucessão rural, mas mapear os processos produtivos da região do Vale do Ivinhema, fomentando as pesquisas acadêmicas e fortalecendo o papel da Universidade na promoção econômica, social e cultural dos agricultores familiares, que ao longo do tempo construíram e constroem suas histórias no campo, produzem o alimento saudável e necessário para a população”, ressalta Fabiano.

Ele lembra que a produção da agricultura familiar está presente diariamente nas mesas das famílias brasileiras, seja por meio de programas do Estado, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), seja pela comercialização com supermercados ou diretamente com os consumidores. “Por isso, o Plano de Sucessão Rural busca apresentar aos jovens a possibilidade de empreender dentro da propriedade rural, explorando diferentes habilidades e oportunidades, agregando valor na produção e abrindo novos caminhos de conhecimento e qualificação profissional por meio de cursos profissionalizantes, além de agregar valor a produtos disponíveis nas propriedades, como doces, mandioca, frutas, mel, verduras, hortifrutigranjeiros, leite e queijo, entre outros”.

“Quando falamos de sucessão rural, estamos falando sobre promover a continuidade do processo produtivo no campo, a reprodução social de seus atores, a segurança alimentar do país e o desenvolvimento socioeconômico das regiões onde essas propriedades estão instaladas. Além de rastrear e identificar possíveis sucessores, para que o processo sucessório seja efetivado, é necessário planejamento a longo prazo, com gestão da produção e capacitação da futura geração, atribuindo responsabilidades aos sucessores e proporcionando conhecimento sobre o negócio da família”, comenta.

Como funciona

Fabiano explica que a iniciativa possui caráter particular, pois aborda primeiramente o processo sucessório com os responsáveis pelas propriedades, que detêm o poder de decisão sobre o negócio da família. “São os responsáveis que irão identificar e dialogar com os possíveis sucessores da propriedade atribuindo responsabilidades e estimulando o pertencimento ao negócio da família. Outro ponto importante é a participação não somente de estudantes e servidores dos cursos de Administração, Ciências Contábeis e Engenharia de Produção da UFMS, mas de representantes de todas as instituições de apoio aos produtores e produtoras rurais do município. Após toda a sensibilização com os responsáveis, iniciamos uma conversa com os jovens das propriedades, possibilitando um canal de comunicação e abertura para tratar do processo de sucessão no núcleo familiar”, diz.

“Por meio de conceitos e debates entre professores, profissionais da área de pesquisa e assistência técnica rural e produtores, a metodologia busca ampliar o conhecimento e o entendimento sobre o que o processo sucessório pode agregar às relações familiares, às tarefas diárias nas propriedades e à geração de renda para permanência no campo”, acrescenta.

Segundo o coordenador do projeto, o processo sucessório se inicia com a identificação dos possíveis sucessores pelos responsáveis da propriedade, para verificar a possibilidade de continuidade do negócio com aquela família. “Muitos são os conflitos em cada núcleo familiar, com demandas particulares e desarranjos organizacionais. A propriedade precisa ser compreendida como fonte de renda para as atuais e futuras gerações.” Segundo o professor, nem sempre todos os membros da família participarão do negócio, mas é importante identificar aqueles que demonstram aptidão para a vida no campo e criar condições para que se sintam parte da propriedade.

O Plano de Sucessão Rural é desenvolvido em encontros mensais. O primeiro abordou gestão e sucessão familiar, conflitos e a relação entre família e propriedade. O segundo é dedicado à gestão dos custos da produção rural, formação de preços e análise de resultados; e o terceiro, aos meios de produção sob a ótica da engenharia, com foco em técnicas mais eficientes e redução de custos.

“No quarto teremos a participação da assistência técnica rural do Estado, conduzida pela Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural, e bancos de fomento da agricultura familiar. O quinto está ligado ao funcionamento das propriedades e à comercialização da produção e conta com o apoio da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal. Já no sexto encontro teremos a participação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Integrado, do Sindicato Rural e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, com os cursos oferecidos.”, completou Fabiano.

O alinhamento das atividades com as famílias do projeto de assentamento Santa Olga, em Nova Andradina, foi desafiador para a equipe que participa do projeto. “A sucessão familiar é um tema sensível, particular e delicado no núcleo das famílias. Raramente ouvimos relatos de famílias que discutem o assunto, muito menos sobre a divisão de tarefas entre os membros da família, para que todos possam fazer parte do processo de produção e da geração de renda da propriedade. Entretanto, ouvimos um “sim” de todas as 15 famílias, que aceitaram participar do Plano de Sucessão Rural, com o objetivo de buscar alternativas de como proceder o processo sucessório da propriedade e incentivar os jovens a permanecer no campo”, relata.

Acompanhamento e parcerias

Fabiano explica que o acompanhamento será realizado in loco com as famílias interessadas em iniciar o processo de sucessão. Como cada núcleo familiar possui particularidades e relações distintas, o atendimento será personalizado, conforme a demanda e a disponibilidade dos professores da UFMS de Nova Andradina e dos parceiros.

“Os pequenos produtores possuem uma rede de apoio institucional para estimular sua permanência no campo. Nesse sentido, o Plano de Sucessão Rural e a atuação da UFMS possibilitam reunir instituições que atendem à agricultura familiar no município para contribuir com os objetivos da ação. A parceria com a Coopaolga foi fundamental para iniciarmos nossa primeira turma, formada por produtores e produtoras empenhados no fortalecimento da produção e preocupados com a continuidade da propriedade familiar”, destaca o coordenador do projeto que ressaltou o empenho do diretor da Coopaolga, Carlos Gomes, para o início das atividades.

O professor ressalta que um dos pontos essenciais da ação é a participação de vários professores e estudantes de cursos da Universidade na construção do Plano de Sucessão Rural. “Com suas competências e áreas de conhecimento, proporcionam um aporte acadêmico e de pesquisa extremamente relevante para o processo sucessório e de produção na agricultura familiar da região do Vale do Ivinhema, permitindo uma melhor gestão e planejamento da propriedade”, acrescenta.

Na coordenação do projeto, também colaboram os professores Silvana Dalmutt Kruger, Luciana Codognoto da Silva, Vitor Cardoso da Silveira e o técnico-administrativo Luciano Farias.

Permanência no campo

“Nosso trabalho busca criar um canal de diálogo entre os responsáveis pela propriedade e a juventude no campo. Vários são os fatores que influenciam essa relação, mas podemos elencar entre os mais críticos a participação no processo produtivo, não somente como filho, filha, genro ou nora, mas também na geração de renda da família. Esse pertencimento passa pela distribuição de responsabilidades dentro da propriedade e, consequentemente, pela compensação pelo trabalho. Mesmo que essa participação ocorra inicialmente de forma mais simples, pode ser um estímulo para desenvolver aptidões no campo e criar alternativas de produção no futuro”, avalia.

Um dos atrativos para as novas gerações se fixarem nas propriedades é o uso crescente da tecnologia. “A tecnologia no campo é uma realidade presente em todos os cenários produtivos, seja na pequena, média ou grande propriedade. Novos modos de produção, sistemas de gerenciamento, máquinas e equipamentos automatizados e conexões via satélite, entre outras ferramentas de inovação, permitem mais eficiência e produtividade nas propriedades”. O acesso a essas novas tecnologias é uma transição na agricultura familiar, pois exige investimentos e novas práticas de produção nos negócios. Esse processo pode ampliar o espaço das futuras gerações, que chegam ao campo com conhecimento e capacitação empreendedora para a gestão da propriedade”, afirma o professor.

Fabiano agradece a disponibilidade dos produtores e produtoras que participam da iniciativa e ressalta que o objetivo é ampliar a contribuição da UFMS para uma agricultura familiar organizada, produtiva, empreendedora e capaz de gerar renda e contribuir para o desenvolvimento das comunidades e dos municípios. O professor salienta que todos os processos sucessórios identificados durante a ação serão acompanhados e orientados pelos parceiros do projeto, considerando as especificidades e as decisões de cada família sobre a continuidade e o futuro da propriedade, com ou sem a participação de sucessores.

Futuramente, o coordenador diz que o plano pode ser aplicado em outros municípios do Estado e do país. “O Plano de Sucessão Rural pode ser aplicado em qualquer município do Estado de Mato Grosso do Sul e no Brasil, basta unir os esforços das instituições em prol da ação. O compromisso das instituições e o respeito aos produtores e produtoras rurais são fundamentais para o sucesso da ação. O processo sucessório é uma alternativa para tratar de um assunto de foro íntimo das famílias, com o objetivo de planejar o futuro da propriedade, por meio do diálogo e do sentimento de pertencimento de todos os membros da família à propriedade”, finaliza Fabiano.

 

Texto: Vanessa Amin

Fotografias: Luciano Farias/Acervo do projeto UFMS vai ao campo/Envato

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