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Wilson Aquino*

Há uma frase de Jesus que deveria estar na parede de toda casa que perdeu alguém: “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4). Não é promessa para os fortes. É promessa para quem chora, e o próprio Cristo chorou diante do túmulo de um amigo (João 11:35). Neste 2 de novembro, o consolo que oferecemos às famílias não é de fachada. Vem da compreensão de que a morte não é o fim da pessoa que amamos, mas uma mudança de condição. Nossos mortos não partiram para o nada e não foram esquecidos.
Eclesiastes descreve o fim da vida com imagem de retorno, não de perda: “o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12:7). Profeta Alma ensina o mesmo: os espíritos, logo que se separam do corpo, são levados para casa, para aquele Deus que lhes deu a vida (Alma 40:11), e a alma nunca morre (Alma 42:9). Não houve um adeus definitivo, houve uma despedida.
Muitos imaginam seus entes queridos inertes, à espera. Pedro registra que “para isto também foi o evangelho pregado aos mortos” (1 Pedro 4:6): há aprendizado e progresso do outro lado. E o Senhor consolou os seus: “os que morrerem em mim não provarão a morte, pois para eles lhes será doce” (Doutrina e Convênios 42:46). Para quem parte na confiança do Senhor, morrer é doce. O amargo fica do lado de cá: a saudade, a mesa vazia, o telefone que já não toca.
A vida na Terra é etapa decisiva de um Plano estabelecido pelo Criador e executado por Seu Filho. E o propósito desse Plano não é acumular riquezas e bens materiais, nem aparecer, mas o crescimento e o fortalecimento do espírito, para que cada filho de Deus retorne ao convívio do Pai e reencontre ali os que amou aqui. Paulo escreve que todos serão vivificados em Cristo (1 Coríntios 15:22) e que “temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus” (2 Coríntios 5:1). Uma partida não interrompe projeto algum: apenas transfere o aluno de sala.
O amor que você teve por sua mãe, por seu filho, pelo amigo que se foi, não foi apagado no dia do enterro. Davi, ao perder um filho, levantou-se e disse: “Eu vou para ele, mas ele não voltará para mim” (2 Samuel 12:23). Ele não fala de passado perdido, fala de destino comum: não diz “eu me conformo”, diz “eu vou”. E a revelação confirma que “a mesma sociabilidade que existe entre nós aqui existirá entre nós lá” (Doutrina e Convênios 130:2). Nada disso é rascunho descartado. É ensaio de eternidade.
Se o amor sobrevive, surge a pergunta que toda família enlutada faz em silêncio: e eu, o que posso fazer por ele agora? Existe, sim, uma obra que pode ser feita por nós em favor dos que partiram sem o batismo, do qual Jesus disse ser preciso nascer da água e do Espírito (João 3:5), e sem o selamento que une marido e mulher, e filhos a pais, para além desta vida.
Paulo pergunta aos coríntios: “que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam?” (1 Coríntios 15:29). Ele não inventa doutrina, argumenta a partir de algo que seus leitores já conheciam. E o Antigo Testamento termina com a promessa de que Elias viria “converter o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais” (Malaquias 4:5-6).
Por que é necessário? Porque “eles sem nós não podem ser aperfeiçoados, nem nós sem eles podemos ser aperfeiçoados” (Doutrina e Convênios 128:18). A salvação de uma família não é assunto individual, é empreendimento coletivo. Esse poder de ligar foi conferido por Cristo, “tudo o que ligares na terra será ligado nos céus” (Mateus 16:19), e é exercido em templos. Não é rito mágico nem imposição: é oferta, que o ente querido tem liberdade de aceitar ou recusar. Deus “julgará todos os homens segundo as suas obras e segundo os desejos de seus corações” (Doutrina e Convênios 137:9).
Essa revelação foi restaurada por intermédio de autoridades de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, presente em quase todo o mundo, sem clero remunerado, autorizada a realizar o batismo pelos mortos e o selamento das famílias para a eternidade. É nas ordenanças de seus templos que a doutrina se torna gesto concreto de amor, e o luto deixa de ser apenas tempo de espera para ser também tempo de trabalho.
A Escritura não descreve o céu com mapas, descreve com promessas. Não haverá mais dor: “Deus limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Apocalipse 21:4). A morte será derrotada: “onde está, ó morte, a tua vitória?” (1 Coríntios 15:55). Ali habita Cristo: “na casa de meu Pai há muitas moradas, para que onde eu estiver estejais vós também” (João 14:2-3), e os fiéis habitarão na presença de Deus e de Seu Cristo para sempre (Doutrina e Convênios 76:62). Partir para estar com Cristo é muito melhor (Filipenses 1:23).
E “preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” (Salmos 116:15). Aos nossos olhos é dor; aos olhos Dele é preciosidade. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. Não devemos ensinar ninguém a não chorar: o choro de Finados mede a grandeza do amor. Mas “o choro pode durar uma noite, e a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5), e Paulo pediu que a tristeza Cristã não fosse “como a dos outros que não têm esperança” (1 Tessalonicenses 4:13). Um luto com horizonte.
Que neste 2 de novembro possamos ir ao cemitério, ou ficar em casa em oração, e lembrar dos nossos com sentimento mais seguro e mais grato, levando flores, saudade e a certeza de que tudo faz parte do Plano de Deus. Porque o resumo de toda a lei é um só: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Mateus 22:37-39).
Enquanto caminhamos, eles vivem. Enquanto amamos, eles permanecem. Enquanto servimos em favor deles, a distância encurta. E quando chegar a nossa vez, haverá reencontro, em amor e alegria, ao lado dos nossos, na presença do Pai. Porque a vida não foi feita para acabar, foi feita para ser eterna, e quem prometeu foi Deus.
*Jornalista, Professor e Escritor
Autor do Livro: Reflexões e Memória
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