Governo de MS autorizou a reabertura do comércio nas cidades e reduziu horário do toque de recolher
Por: Correio do Estado
Em meio ao colapso no sistema de saúde, com hospitais lotados em função da pandemia de Covid-19, o governo do Estado determinou medidas de flexibilização a partir de segunda-feira (5), o que pode agravar ainda mais a situação de Mato Grosso do Sul, segundo infectologistas.
De acordo com os especialistas, a média de casos continua em alta, com cerca de 500 contaminados por dia, e a situação pode piorar com o fim das restrições.
Julio Croda, infectologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), explica que o correto para conter a propagação do vírus e a lotação dos hospitais seria continuar com medidas mais duras até que a ocupação global de leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) chegasse a 80%.
Ontem, Campo Grande estava com 103% de ocupação dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTI). Há 119 pessoas esperando por um leito na macrorregião de Campo Grande, onde 93 são campo-grandenses.
“Não deveria autorizar essas flexibilizações. Durante as duas semanas de restrição, houve uma desaceleração da doença, mas não tivemos redução nas taxas de contágio, registramos recorde de mortes e os hospitais continuam lotados. O correto seria continuarmos com as medidas restritivas até termos pelo menos 80% de ocupação nos hospitais”, afirmou o infectologista.
MEDIDAS
Cidades com bandeira cinza (alto risco de contaminação pelo novo coronavírus), de acordo com o Programa de Saúde e Segurança da Economia (Prosseguir), devem obedecer ao toque de recolher das 20h às 5h. Na bandeira vermelha, a restrição é das 21h às 5h. E para municípios na bandeira laranja, das 22h às 5h.
Estão livres do toque de recolher: trabalhadores da saúde, transporte, serviços de fornecimento de alimentos e medicamentos por meio de delivery, farmácias ou drogarias, funerárias, postos de combustíveis, indústrias, restaurantes localizados em rodovias e hotéis.
Campo Grande passou do grau extremo para o alto de contaminação da Covid-19, saindo da bandeira cinza para a vermelha.
Segundo Croda, o horário do toque de recolher deveria ser mais rigoroso, levando em consideração a atual situação de Mato Grosso do Sul.
O Estado contabiliza 215.598 casos confirmados de Covid-19, com 1.729 novos registros ontem, conforme boletim epidemiológico do novo coronavírus, apresentado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES).
O mês de março registra recorde histórico de óbitos durante todos os meses da pandemia em Mato Grosso do Sul, com 918 vidas perdidas para a doença.
“O toque de recolher está muito frouxo para a situação que vivemos, ele deveria iniciar às 18h, como já acontece em vários locais do Brasil, com o objetivo de combater a transmissão. Todas essas medidas estão sendo muito permissíveis, quando até mesmo o próprio Estado reconhece que não tem capacidade de abrir mais leitos, e com essas novas determinações, a tendência é de termos a necessidade de ainda mais”, destacou o infectologista.
Conforme o decreto, seguem proibidos eventos, reuniões e festividades em clubes, salões, centros esportivos e afins com participação de mais de 50 pessoas.
O comércio em geral pode reabrir as portas, mas com a limitação de atendimento ao público de, no máximo, 50% de sua capacidade, com distanciamento de 1,5 m e medidas de biossegurança.
O infectologista André Barbosa criticou as determinações impostas, alegando que a pandemia pode ter piora, e os impactos devem ocorrer com o aumento no número de casos, mortes e internações nas próximas duas semanas.
“Vivemos uma situação alarmante, faltam leitos e todas essas determinações não condizem com a atual situação de Mato Grosso do Sul, temos registrado diversos recordes de internações e óbitos nos últimos dias, quem puder deve permanecer em casa, só assim venceremos essa crise”, alegou o especialista.
Croda reitera que os municípios não têm capacidade de fiscalizar se os estabelecimentos estão seguindo todas as regras de biossegurança.
“Já sabemos que a fiscalização não acontece de maneira efetiva, ou seja, por conta da incapacidade de fiscalizar, o decreto, na prática, não será cumprido, impactando diretamente no aumento de casos e leitos nos hospitais”, pontuou.
As atividades não essenciais estão com o funcionamento suspenso no Estado desde o dia 26 de março, quando começou a vigorar o decreto que vence neste domingo.
Ainda de acordo com o decreto, fica suspensa a realização de cirurgias eletivas pelos hospitais da rede pública estadual e pela rede contratualizada.
As cidades que têm sistema de transporte coletivo podem manter o serviço funcionando em até uma hora após o toque de recolher, o que para Croda é muito preocupante. Ele destaca que uma das maiores fontes de transmissão é o transporte público.
“Existem diversos estudos sobre o assunto. Com as medidas de flexibilização e maior mobilidade, aumenta ainda mais a aglomeração nos ônibus, que é uma das maiores fontes de transmissão. Deveriam aumentar a frota e instituir que as pessoas ficassem apenas sentadas, como já acontece em diversos estados. O transporte é um local importante de transmissão”, pontuou o infectologista.
VACINAÇÃO
O decreto ainda determina que todos os municípios vacinem a população contra a Covid-19 de forma contínua – de manhã até à noite e também aos fins de semana –, sendo este o único caminho para que a pandemia seja cessada.
Todos os municípios terão de divulgar o calendário de vacinação com as datas e critérios de imunização da população, para que chegue ao máximo de pessoas possíveis.
Desde o início da campanha de imunização, 122.215 doses já foram aplicadas no Estado e 10,77% da população já estava vacinada contra a Covid-19 em Mato Grosso do Sul, até a tarde de ontem, segundo os dados do vacinômetro.
Mato Grosso do Sul é o estado que mais aplicou doses dos imunizantes no País.

