Dados da Serasa Experian mostram que 8,7% dos produtores estavam inadimplentes no primeiro trimestre deste ano
Súzan Benites/Correio do Estado
A inadimplência entre os produtores rurais de Mato Grosso do Sul voltou a aumentar e alcançou o maior patamar dos últimos anos.
Levantamento inédito da Serasa Experian, enviado com exclusividade ao Correio do Estado, aponta que 8,7% dos produtores pessoas físicas do Estado estavam inadimplentes no primeiro trimestre deste ano, 1 ponto porcentual acima da média nacional (8,8%) e 1,4 ponto porcentual acima do registrado no mesmo período de 2025, quando o índice era de 7,3%.
O avanço interrompe o cenário de relativa estabilidade observado no ano passado. Em 2025, a inadimplência rural em Mato Grosso do Sul havia crescido apenas 0,1 ponto porcentual em relação a 2024, desempenho considerado um dos mais favoráveis do País.
No primeiro trimestre deste ano, o Estado acompanha o agravamento das dificuldades financeiras enfrentadas pelo setor, pressionado pelos elevados custos de produção, as oscilações dos preços das commodities, as perdas climáticas registradas nas últimas safras e o crédito mais restrito.
Na avaliação do head de Agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, o aumento reflete um processo que vinha sendo observado desde o ano passado.
“A alta gradual da inadimplência mostra que, no início de 2026, os produtores rurais ainda enfrentam desafios para recompor sua capacidade financeira. Mesmo com uma perspectiva mais favorável para alguns segmentos do agronegócio, os efeitos de ciclos anteriores, com custos elevados, oscilações de preços e restrição ao crédito, seguem impactando o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento no setor”, afirma.
Os dados mostram que Mato Grosso do Sul permanece abaixo da média da Região Centro-Oeste, cuja inadimplência chegou a 10,1%, mas o crescimento proporcional do Estado chama atenção por ocorrer após um período de estabilidade e em um momento em que diversas cadeias produtivas ainda buscam recuperar a rentabilidade.
PERFIL
Assim como no levantamento anterior, o maior porcentual de inadimplência continua concentrado entre produtores sem registro formal de propriedade rural, grupo que é composto por arrendatários, integrantes de grupos econômicos ou familiares e produtores sem identificação nos cadastros fundiários.
Em Mato Grosso do Sul, esse grupo alcançou índice de 12,9%, muito acima da média nacional. Na sequência aparecem os pequenos proprietários, com inadimplência de 8,4%, os médios proprietários, com 7,8%, e os grandes produtores, que registraram o menor índice no Estado, de 6,6%.
O comportamento sul-mato-grossense difere do cenário nacional. No Brasil, os produtores sem registro também lideram a inadimplência, com 11%, mas os grandes proprietários aparecem em seguida, com 9,9%, enquanto médios e pequenos registraram 8,6% e 8,3%, respectivamente.
Segundo especialistas do mercado de crédito, a elevada inadimplência entre produtores sem registro formal decorre da maior dificuldade de acesso às linhas tradicionais de financiamento, além da menor capacidade de oferecer garantias e da maior exposição a operações de crédito com custos mais elevados.
Outro recorte do levantamento mostra que a inadimplência permanece concentrada entre produtores em idade economicamente mais ativa.
Nacionalmente, os maiores índices foram registrados entre pessoas de 30 a 39 anos, seguidas pelos produtores de 18 a 29 anos e de 40 a 49 anos. A partir dos 50 anos, os porcentuais passam a diminuir gradualmente.
RECUPERAÇÃO
O aumento da inadimplência ocorre paralelamente ao avanço dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio sul-mato-grossense.
Conforme levantamento publicado pelo Correio do Estado na semana passada, o número de empresas do setor que recorreram ao instrumento para renegociar dívidas disparou no Estado ao longo dos últimos meses, impulsionado pela combinação de juros elevados, sucessivas quebras de safra em algumas regiões e redução da capacidade de pagamento dos produtores.
Embora a recuperação judicial envolva pessoas jurídicas e o indicador da Serasa considere produtores rurais pessoas físicas, os dois movimentos refletem um mesmo ambiente de deterioração financeira vivido pelo agronegócio.
O aumento da inadimplência reduz o acesso ao crédito e eleva a percepção de risco pelas instituições financeiras, enquanto empresas mais endividadas encontram maior dificuldade para honrar financiamentos e manter o fluxo de caixa.
Esse cenário também é observado na análise do Agro Score, indicador desenvolvido pela Serasa Experian para medir o risco de crédito dos produtores rurais.
A pontuação média caiu de 606 pontos, no primeiro trimestre de 2025, para 591 pontos, no mesmo período deste ano, indicando aumento da percepção de risco por parte do mercado.
Segundo Marcelo Pimenta, ferramentas baseadas em inteligência artificial tendem a ganhar importância na concessão de crédito ao setor.
“Cada propriedade rural possui características próprias, e compreender essas particularidades é essencial para uma análise de risco mais assertiva. Com o Agro Score, reunimos inteligência de dados e informações específicas do agronegócio para apoiar instituições financeiras, cooperativas e empresas do setor na tomada de decisões mais seguras e equilibradas”, explica.
Pela metodologia da Serasa Experian, o indicador considera apenas pessoas físicas da população rural com dívidas superiores a R$ 1 mil, vencidas há mais de 180 dias e relacionadas a financiamentos ou atividades ligadas ao agronegócio.
A base contempla cerca de 10,7 milhões de produtores rurais em todo o País, identificados por registros de imóveis rurais, financiamentos agropecuários ou cadastro de atividade rural.

