Foram classificadas cidades com maior porcentagem de votos e comparados, proporcionalmente, casos e mortes
Por: Campo Grande News

O presidente, Jair Bolsonaro, junto ao governador, Reinaldo Azambuja, participando de evento que aconteceu em agosto de 2020, em Corumbá (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)
Municípios de Mato Grosso do Sul que em 2018 tiveram maioria de votos em Jair Bolsonaro apresentam média proporcional de casos de covid-19 superior às cidades que registraram menor taxa de votos no atual presidente do País.
A relação foi estudada em pesquisa feita em universidades do Brasil e Canadá, que constatou aumento no risco de infecção em 299% e de mortes, 415%, em comparação com lugares onde ele perdeu eleição. Atualmente o governo é alvo de CPI, que investiga a negligência no combate à pandemia no Brasil.
Ainda conforme o material, as cidades mais bolsonaristas, em que ele obteve mais de 70%, apresentaram aumento de 567% na chance de se infectar e 647% no risco de morrer do que numa cidade onde teve menos de 30% dos votantes.
Especificamente em relação aos 79 municípios sul-mato-grossenses, o cenário é parecido.
No geral, o Estado foi uma das 16 unidades federativas que tiveram maioria de votos em Bolsonaro, e apenas 10 municípios foram mais favoráveis ao candidato rival – Dois Irmãos do Buriti, Itaquiraí, Japorã, Juti, Miranda, Paranhos, Selvíria, Taquarussu, Tacuru e Vicentina.
Portanto, a reportagem cruzou resultados eleitorais do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a respeito do 2º turno da eleição para presidente em 2018, polarizada entre Jair Bolsonaro (à época, pelo PSL) e Fernando Haddad (PT), com dados sobre a covid-19 disponibilizados pelo Ministério da Saúde.
O resultado, em nível estadual, você confere nos dois gráficos abaixo. Foi somado o total de casos e óbitos pelo coronavírus – divididos entre o grupo de municípios que tiveram maioria de votos no atual presidente e os que tiveram mais votantes no petista – e comparado com o total de habitantes acumulados desses dois conjuntos. Como forma de facilitar a visualização, foi traçada a média móvel semanal de ambos os índices.
Em relação aos casos, houve maior incidência nos municípios menos favoráveis em meados de agosto e setembro do ano passado. Apesar disso, a partir da primeira semana de outubro, cidades mais alinhadas, em 2018, ao bolsonarismo, registraram maior presença do vírus em pacientes – ou seja, no acumulado proporcional ao total de habitantes, esses municípios foram mais afetados.
Além disso, entre os óbitos, houve maior irregularidade, mesmo que a partir de meados de março a proporção de vítimas tenha sido mais evidente nesses lugares que mais elegeram o atual presidente.
Estudo – Intitulado “Efeitos desastrosos de lideranças negacionistas: Evidência da crise da covid-19 no Brasil”, o trabalho acadêmico procurou entender como os discursos relativizando e minimizando danos da covid-19 podem influenciar no comportamento da população, sobretudo na falta de adesão ao distanciamento social, uso de máscaras e medidas de higiene, bem como na adoção de tratamentos médicos sem comprovação científica como é o caso da ivermectina ou cloroquina.
Vale ressaltar que a publicação, que analisou os mais de 5,5 mil municípios brasileiros, ainda não foi analisada “por pares” – processo feito com objetivo de validar trabalhos científicos de forma crítica e imparcial por outros pesquisadores da área. O trabalho contou com três pesquisadores – Sandro Cabral, do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Nobuiuki Ito, do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) e Lenado Pengeluppe, da Universidade de Toronto, no Canadá.
No artigo, os autores registraram que: “o estudo joga luzes e mostra, metodologicamente, os efeitos do negacionismo dos líderes, particularmente sobre seus próprios apoiadores e seguidores”. A análise contabilizou registros de todos os 5.570 municípios brasileiros, durante as primeiras 52 semanas da pandemia, equivalentes a um ano, cruzando com dados do TSE sobre os resultados de 2018 em cada cidade.
Conforme o próprio estudo, outros fatores têm de ser levados em consideração para tentar mensurar maior ou menor risco de infecção como distribuição geográfica, renda e condições sanitárias no geral. Mas, aspectos como a adesão a orientações feitas por lideranças são abordados.

