Enquanto o tempo avança, histórias, tradições e patrimônios culturais correm o risco de desaparecer. No Vale do Ivinhema, pesquisadores, estudantes e moradores estão unindo esforços para que essa memória permaneça viva. Por meio de iniciativas da UFMS de Nova Andradina, documentos, relatos, objetos e experiências cotidianas ganham novos significados e ajudam a construir uma narrativa mais diversa e representativa da história regional. Trata-se dos projetos de pesquisa Histórias e Patrimônios Culturais do Vale do Ivinhema e de extensão Viva o Museu, coordenados pela professora Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski.
O interesse da professora Dulceli pela história local e pelo patrimônio cultural nasceu ainda na graduação. Ao chegar a Nova Andradina, ela se deparou com a escassez de estudos sobre o município e passou a desenvolver pesquisas voltadas à história regional e à preservação da memória local. “A historiografia sobre Nova Andradina ainda estava dando os primeiros passos, com poucos registros”, recorda. A constatação de lacunas semelhantes em todo o Vale do Ivinhema levou à criação do projeto de pesquisa.
A escolha do Vale do Ivinhema como foco das ações surgiu tanto da realidade vivenciada em sala de aula quanto da constatação de uma lacuna histórica. Segundo Dulceli, o câmpus recebe estudantes de diversos municípios da região e, nos diálogos desenvolvidos ao longo das disciplinas, tornou-se evidente a necessidade de ampliar as pesquisas sobre a história e os patrimônios culturais locais. “Em importantes obras sobre museus, histórias de mulheres e patrimônios culturais de Mato Grosso do Sul, há um silenciamento sobre o Vale do Ivinhema a ser rompido”, afirma. Para a pesquisadora, reconhecer e valorizar as memórias da região é um passo fundamental para fortalecer sua identidade cultural e garantir que suas histórias também ocupem espaço na produção historiográfica sul-mato-grossense.
Para Dulceli, patrimônio cultural vai muito além de monumentos e edifícios históricos. Enquanto o patrimônio material abrange construções, objetos e espaços físicos, o imaterial está presente nos saberes, práticas e modos de vida das comunidades. O projeto busca justamente estimular um novo olhar sobre lugares cotidianos, como praças, feiras, bibliotecas e cemitérios, reconhecendo-os como espaços de memória.
Segundo a pesquisadora, ampliar a noção de patrimônio significa incluir sujeitos e histórias muitas vezes ausentes das narrativas tradicionais. Por isso, iniciativas como a criação do Espaço Ofaié e da Sala Francisca Nantes, dedicada à agricultora que chegou à região antes da fundação de Nova Andradina, ajudam a aproximar a população de referências com as quais ela efetivamente se identifica. Neste sentido, ela acredita que ouvir a comunidade é fundamental.
“Durante o 1º Fórum do Patrimônio Cultural de Nova Andradina, realizado em 2025, a própria comunidade indicou espaços e saberes que considerava bens culturais. Esse diálogo foi fundamental para a elaboração do projeto de mapeamento dos patrimônios significativos para a população da região”, lembra.
Quando a história ganha novos protagonistas
Para valorizar e registrar o olhar sobre quem construiu a história do Vale do Ivinhema, a equipe tem realizado entrevistas com moradores de diferentes trajetórias e pesquisado fontes que ajudam a revelar narrativas muitas vezes ausentes dos registros tradicionais. Em Nova Andradina, onde a pesquisa teve início, o trabalho envolve a consulta ao acervo documental do Museu Histórico e Cultural Antônio Joaquim de Moura Andrade, que reúne coleções de jornais, fotografias e outros documentos capazes de lançar luz sobre personagens e experiências do cotidiano.
A pesquisa combina entrevistas de história oral, análise de jornais e fotografias, além da observação dos próprios espaços de memória da região. O objetivo é expandir gradualmente o trabalho para outros municípios do Vale do Ivinhema, como Batayporã, Ivinhema, Anaurilândia e Taquarussu, contando também com a colaboração de estudantes e egressos do curso de História oriundos dessas localidades.
Nesse processo, os acervos pessoais dos moradores têm se revelado fundamentais. Em uma das entrevistas, a professora aposentada Laurecy Correia Tomazinho apresentou à equipe a primeira versão do livro didático de história de Nova Andradina, publicada em 1985 em parceria com Zenilde Osti de Oliveira. O material, ainda datilografado e com correções feitas a lápis antes da edição final, além das primeiras partituras do hino municipal, acabou sendo posteriormente doado ao acervo do Museu, contribuindo para a preservação da memória local.
As descobertas acumuladas ao longo do trabalho de campo têm sido marcantes. Na avaliação da pesquisadora, uma das entrevistas mais emocionantes foi realizada com Dona Rita, benzedeira que completou 103 anos e acompanhou o nascimento e o crescimento de Nova Andradina. Ao longo da vida, ela exerceu diferentes atividades — foi açougueira, carvoeira, parteira, artesã e benzedeira — e continua recebendo pessoas que buscam uma oração. Sua trajetória inspirou uma exposição organizada no Museu durante o mês de março, em homenagem às mulheres e ao artesanato.
Dulceli conta que outra experiência impactante ocorreu na Aldeia Anodi Ofaié, em Brasilândia, durante a entrevista com Dona Neuza, uma das anciãs do povo Ofaié. Ela relatou o sofrimento vivido por sua comunidade após a expulsão de suas terras, as dificuldades enfrentadas ao ser separada da família e a emoção de testemunhar a recuperação de parte do território tradicional. Atualmente, Dona Neuza atua na preservação e na transmissão da cultura Ofaié por meio do artesanato.
Os pesquisadores também têm encontrado no cemitério municipal um importante espaço de reflexão histórica. Fotografias, símbolos religiosos, mensagens e elementos presentes nas lápides revelam aspectos das relações familiares, das atividades profissionais, das crenças e até das representações de gênero presentes na sociedade local. Em alguns túmulos, por exemplo, a identidade profissional do falecido ocupa posição de destaque, permitindo observar como determinados valores e papéis sociais permanecem representados mesmo após a morte.
A receptividade da comunidade tem sido um dos pontos fortes da iniciativa. Além de compartilhar fotografias, documentos e relatos, moradores passaram a participar mais ativamente das exposições e do Itinerário do Patrimônio, roteiro educativo que percorre espaços históricos da cidade. As atividades têm levado estudantes, professores e moradores a enxergarem com novos olhos lugares que fazem parte do cotidiano.
Desafios e impactos
Ao mesmo tempo em que revela novos protagonistas da história regional, a pesquisa também enfrenta desafios. Como o trabalho ainda está em sua fase inicial, a maior parte das ações concentra-se em Nova Andradina, com algumas incursões em municípios vizinhos, como Brasilândia e a Aldeia Anodi Ofaié. Segundo Dulceli, os próximos passos exigirão maior esforço logístico e financeiro. “Dependemos de recursos para viajar aos outros municípios em busca das fontes de pesquisa”, explica. Além de Nova Andradina, apenas Bataguassu conta com um museu estruturado, enquanto Batayporã possui um centro de memória. Nos municípios mais próximos, a participação de estudantes e egressos do Curso de História pode facilitar a continuidade dos trabalhos, mas a expansão para localidades mais distantes ainda representa um desafio.
Para a pesquisadora, porém, o impacto da iniciativa justifica o esforço. Ela destaca que mapear e divulgar os patrimônios culturais da região é um passo essencial para sua valorização e preservação. Um exemplo concreto foi o trabalho desenvolvido junto ao Museu Histórico e Cultural Antônio Joaquim de Moura Andrade e a realização do Fórum Municipal do Patrimônio Cultural, ações que contribuíram para o processo de tombamento do museu como patrimônio histórico municipal.
Os resultados também chegam às escolas. Dulceli observa que há uma demanda significativa por materiais voltados à história regional e, principalmente, às histórias locais. Nesse sentido, a pesquisa fornece conteúdos que ajudam estudantes e professores a compreenderem a região como um espaço carregado de memória e significado histórico.
Além do livro “Nova Andradina: histórias de mulheres”, já foram realizadas exposições sobre a trajetória feminina no município, religiosidades de matriz africana, patrimônios culturais locais e a história da cidade retratada pela imprensa. Um livro didático de história de Nova Andradina, voltado aos anos iniciais do ensino fundamental e com conteúdos de educação patrimonial, também está em fase final de edição.
Para Dulceli, iniciativas como essa demonstram o papel da universidade na construção da identidade cultural regional. Ao produzir conhecimento e compartilhá-lo com a comunidade, a UFMS contribui para que a própria população reconheça, valorize e preserve as riquezas culturais presentes em seu território.
Um museu vivo para contar histórias
Se o projeto de pesquisa busca identificar e registrar as múltiplas histórias do Vale do Ivinhema, o projeto de extensão Viva o Museu atua para que esse patrimônio chegue à comunidade e seja apropriado por ela. A iniciativa nasceu em um momento delicado para o Museu Histórico e Cultural Antônio Joaquim de Moura Andrade. Durante a pandemia, após um temporal danificar o telhado do prédio e colocar parte do acervo em risco, a professora Dulceli e estudantes do Curso de História passaram a auxiliar na higienização, organização e digitalização dos documentos históricos. A experiência deu origem a uma parceria permanente entre a UFMS e a Fundação Nova Andradinense de Cultura (Funac), que mais tarde resultaria no projeto Viva o Museu.
Para o diretor-presidente da Funac, Rodrigo da Silva Souza, a parceria com a UFMS demonstra como a integração entre gestão pública, ensino, pesquisa e extensão fortalece as políticas culturais e amplia o acesso da população ao patrimônio histórico. Segundo ele, ações como o Viva o Museu e o Itinerário do Patrimônio aproximam a comunidade das discussões sobre memória e identidade cultural. A gerente de Patrimônio e Memória da Fundação, Andressa Alves Moreira, acrescenta que essa aproximação contribui para a preservação da memória coletiva e para a formação de cidadãos mais conscientes da importância do patrimônio cultural.
Desde então, a colaboração tem contribuído para a reorganização do espaço museológico e para a criação de novas formas de aproximação entre o museu e a população. Com apoio de estudantes, pesquisadores e servidores da Funac, foram implantadas iniciativas como as salas dedicadas à história das mulheres e à história da educação, além da organização da reserva técnica, da política de acervo e do inventário do museu. “O Museu tem que ser um espaço vivo, tem que ser ocupado pelas pessoas”, defende Dulceli. Para ela, cada objeto, documento ou ambiente preservado constitui uma fonte histórica capaz de despertar questionamentos, interpretações e novas pesquisas.
A proposta se concretiza por meio de exposições temáticas, oficinas, cursos de formação, palestras, visitas guiadas e eventos como a Semana do Museu e as Jornadas do Patrimônio. As ações alcançam diferentes públicos, desde estudantes da educação básica até idosos, profissionais da cultura e membros da comunidade em geral. Um dos focos do projeto é a educação patrimonial, buscando desenvolver a consciência histórica e estimular o reconhecimento dos patrimônios culturais existentes na própria região.
Os resultados já aparecem nos números e nas experiências vividas pela comunidade. Entre março de 2025 e maio de 2026, mais de 3,3 mil pessoas participaram das atividades promovidas pelo projeto. Segundo a professora, o museu passou a ser percebido pelas escolas como um importante espaço educativo. Entre as experiências mais marcantes está a realização da Semana do Museu de 2025, que reuniu 826 participantes e contribuiu para fortalecer o movimento que culminou no tombamento do museu como patrimônio histórico municipal.
As exposições também têm provocado encontros emocionantes entre a população e sua própria história. Mostras dedicadas às mulheres da cidade e à cultura afro-brasileira levaram ao Museu famílias que nunca haviam visitado o espaço. Dulceli recorda, com especial emoção, a cena de um estudante guiando a própria mãe durante uma visita. A mulher nunca havia entrado no Museu e o filho, após participar de uma atividade escolar, passou a explicar cada ambiente e exposição. Para a coordenadora, momentos como esse demonstram que o conhecimento produzido e compartilhado pelo projeto está alcançando seu objetivo.
Outro marco foi a criação do Espaço Ofaié. A construção da exposição contou com a participação direta da comunidade indígena da Aldeia Anodi Ofaié, em Brasilândia, que auxiliou na escolha dos objetos e na concepção do ambiente. Lideranças e artesãs da comunidade acompanharam a implantação do espaço e participaram de sua inauguração. Segundo Dulceli, o reconhecimento da cultura Ofaié dentro do museu representa um passo importante para dar visibilidade a uma história que durante muito tempo permaneceu à margem das narrativas oficiais.
Além das ações educativas e expositivas, o projeto tem contribuído para a produção e circulação do conhecimento sobre a região. Livros, artigos científicos, materiais didáticos e pesquisas acadêmicas vêm sendo produzidos a partir das atividades desenvolvidas.
Para Dulceli, iniciativas como o Viva o Museu reforçam o papel social da universidade pública. “A universidade não se fecha em seus muros, ela pertence à comunidade”, afirma. Ao aproximar estudantes, pesquisadores e moradores da história regional, o projeto busca transformar o patrimônio cultural em um elemento vivo do cotidiano, fortalecendo os vínculos entre memória, identidade e pertencimento no Vale do Ivinhema.
A extensão na formação dos estudantes
Além dos impactos na preservação da memória regional, o projeto também tem contribuído para a formação dos estudantes envolvidos nas ações. O estudante de História Matheus da Silva Souza encontrou no Viva o Museu a oportunidade de vivenciar, na prática, conteúdos relacionados à memória e ao patrimônio cultural que despertaram seu interesse durante a graduação. “Atuar diretamente no museu tem sido motivo de muita felicidade e aprendizado”, resume.
Entre suas atividades estão a pesquisa para exposições, a organização de conteúdos e a condução de visitas guiadas. Segundo ele, o contato com a comunidade amplia a formação acadêmica ao aproximar os estudantes de relatos e memórias que complementam os registros documentais. As visitas escolares são especialmente marcantes. “É muito interessante perceber a mudança no olhar das crianças quando elas entendem que a história da cidade também merece ser valorizada”, observa.
Para Matheus, a extensão universitária mostrou que o patrimônio cultural não se limita a objetos e documentos, mas também está presente nas histórias, saberes e vivências das pessoas. Essa compreensão reforça o papel da educação patrimonial no fortalecimento do pertencimento e da valorização da cultura local.
Texto: Vanessa Amin
Fotografias: Acervo da equipe dos projetos















