Pesquisa mostra que desmatamento teve maior peso nas perdas do Cerrado e reconstrói mudanças desde 1985
Por Inara Silva | Campo Grande News
Mato Grosso do Sul perdeu mais de um terço do carbono armazenado em sua vegetação nativa ao longo de quatro décadas. Entre 1985 e 2024, o volume estimado caiu de 248,2 milhões para 162,8 milhões de toneladas, uma redução de 85,4 milhões de toneladas, equivalente a 34,4%. O resultado revela a dimensão das transformações ambientais ocorridas no Estado, especialmente no Cerrado, onde a retirada da vegetação nativa para a expansão de pastagens e lavouras teve papel predominante nas perdas.
Mato Grosso do Sul perdeu 34,4% do carbono armazenado na vegetação nativa entre 1985 e 2024, queda de 248,2 milhões para 162,8 milhões de toneladas. Segundo estudo publicado na revista Forest Ecology and Management, o Cerrado teve a maior perda, de 72,2 milhões de toneladas, devido à expansão de pastagens e lavouras. No Pantanal, a redução foi de 9,7 milhões, e a recorrência de queimadas se destacou. A pesquisa usou 2.662 inventários do Imasul e dados do MapBiomas.
Os números fazem parte da pesquisa publicada recentemente na revista científica internacional Forest Ecology and Management, que reconstruiu a evolução do carbono armazenado na vegetação acima do solo nos três biomas presentes em Mato Grosso do Sul: Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica.
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O estudo, conduzido pelo pesquisador Rômullo Oliveira Louzada e colaboradores, combinou informações de inventários florestais do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) com mapas anuais de cobertura vegetal e registros de queimadas do MapBiomas.
A análise permitiu identificar não apenas quanto carbono havia na vegetação no início e no fim do período, mas também como o desmatamento, os incêndios e a recuperação natural contribuíram para as mudanças registradas.
“Já tinha uma noção de que o carbono ia cair. Caiu a quantidade de vegetação nativa, cai a quantidade de carbono. Mas a gente não tinha noção da magnitude”, explica Louzada.
Maior redução – O Cerrado apresentou a maior perda absoluta de carbono armazenado entre os biomas analisados. Em 1985, a vegetação do bioma em Mato Grosso do Sul reunia aproximadamente 151,4 milhões de toneladas de carbono. Em 2024, esse volume havia diminuído para 79,2 milhões, uma redução de 72,2 milhões de toneladas.
A queda equivale a aproximadamente 47,7% do estoque estimado no início da série histórica. Segundo a pesquisa, a principal explicação está na transformação de áreas de vegetação nativa em pastagens e lavouras. Quando a cobertura original é retirada, parte da biomassa que armazenava carbono desaparece, reduzindo a capacidade de mantê-lo na vegetação.
Durante o crescimento, as plantas absorvem gás carbônico da atmosfera e utilizam o carbono para formar troncos, galhos, folhas e outros tecidos. Por isso, a quantidade de vegetação existente e suas características influenciam diretamente o volume armazenado.
Os incêndios também contribuíram para as perdas no Cerrado. Entre 1985 e 2024, o estudo estimou perdas acumuladas de 11,6 milhões de toneladas de carbono atribuídas ao fogo, enquanto os ganhos associados à recuperação e às mudanças da vegetação somaram 6,3 milhões.
Apesar desse desequilíbrio, o desmatamento teve maior peso na redução do estoque de carbono do bioma. A situação é diferente no Pantanal, onde a pesquisa identificou perdas acumuladas expressivas associadas à repetição das queimadas. Nesse bioma, o fogo pode atingir uma área diversas vezes ao longo dos anos, mesmo quando a vegetação consegue rebrotar depois dos incêndios.
Carbono perdido – No Pantanal sul-mato-grossense, o estoque estimado de carbono na vegetação passou de 83,1 milhões de toneladas, em 1985, para 73,4 milhões, em 2024. A redução foi de 9,7 milhões de toneladas. Embora menor que a registrada no Cerrado, essa diferença não representa toda a movimentação de carbono ocorrida no período.
Ao somar as perdas atribuídas aos incêndios ao longo das quatro décadas, os pesquisadores chegaram a 145,7 milhões de toneladas de carbono no Pantanal. Os pesquisadores estimaram em 27 milhões os ganhos associados à recuperação e às mudanças da vegetação.
Os números mostram a importância de considerar os processos ocorridos entre o início e o fim da série histórica. Uma mesma área pode perder carbono durante uma queimada, recuperar parte dele com o crescimento da vegetação e voltar a sofrer perdas quando outro incêndio acontece.
A comparação entre os dois biomas evidencia que a redução do carbono armazenado não tem uma única causa. No Cerrado, predomina a conversão da vegetação nativa para outros usos da terra. No Pantanal, a recorrência do fogo se destaca entre os processos analisados.

